A jornada física e psicológica para superar o luto
É difícil, no
primeiro contato com Livre –
independentemente se for por meio do trailer, da sinopse ou se você for
assistir ao filme sem saber do que se trata – não lembrar de Na Natureza Selvagem, filme de 2007 dirigido
por Sean Penn (que também era baseado em uma história verídica). Os mais xiitas
vão reparar semelhanças até nos títulos das obras: a de Penn se chama Into the Wild e a de Jean-Marc Vallée, Wild.
Entretanto, Vallée
parece saber não só da existência dessa semelhança, como também das possíveis
comparações. Dessa forma, ele cria um filme que não possui praticamente nenhuma
semelhança com o de Sean Penn, além dos títulos e das pesadas mochilas nas
costas que seus personagens carregam.
Livre é, antes de mais nada –
antes mesmo de ser um filme sobre mudança de vida, superação de limites físicos
e psicológicos e reaproximação com a natureza –, uma história sobre superar o
luto. A morte da mãe de Cheryl Strayed desencadeia todos os acontecimentos da
trama e tem papel importantíssimo na decisão de pôr um ponto final em sua vida
antiga e recomeçar do zero. Para isso, a jovem decide fazer uma caminhada,
sozinha, pela Pacific Crest Trail, que se estende da fronteira dos EUA com o
México até o Canadá, totalizando mais de 4 mil quilômetros de extensão (Cheryl
caminhou 1800 na história verídica).
A direção de Vallée,
juntamente com uma edição ágil e inteligente, faz bom proveito das belas paisagens
da trilha, mas o que chama realmente a atenção é a forma com que a vida de
Cheryl é contada, através de brilhantes flashbacks
– muitos deles silenciosos e que duram poucos segundos na tela. Isso dá uma
dinâmica muito interessante à narrativa, pois vamos descobrindo aos poucos (e
de forma não linear) os motivos para a jovem ter se jogado nessa jornada.
Reese Witherspoon, em
sua melhor forma, dá vida, honestamente, a uma Cheryl sensível, forte e também
vulnerável, mas acima de tudo, crível. Sua química com Laura Dern – inspiradíssima,
apaixonante, muito bem aproveitada e merecedora da indicação ao Oscar de
coadjuvante – é um deleite para o espectador, e a direção de Vallée faz com que
entendamos muito bem a influência que os ensinamentos, a energia e a educação de
Bobbi exerciam em Cheryl, assim como o porquê de a mãe lhe fazer tanta falta.
Livre é uma história muito bem
contada e que tem, entre seus maiores êxitos, o fato de não cruzar a linha
tênue da pieguice. Porém, isso também serve de base para uma única ressalva
negativa: Livre é um filme que dá seu
recado, ele faz isso muito bem; mas não é um filme que emociona. Temos cenas belíssimas
(como a que Cheryl ajoelha na floresta e chora ao lembrar da mãe), mas que não chegam a ser
poderosas como poderiam (ou deveriam).
Vale destacar também (porque
quando merece a gente tem o dever de elogiar) a adequada adaptação que o
título Wild recebeu no Brasil: Livre. A palavra capta muito bem o espírito
da história de Strayed e tem boa serventia se comparada à tradução ao pé da
letra, que seria algo como Selvagem, Silvestre, Natureza Selvagem e derivados. Afinal, essa é realmente uma história
de libertação, tanto física quanto psicológica. Cheryl parte nessa jornada com
o objetivo de se sentir livre. Livre das escolhas erradas, do pesar, da dor, do
luto. Livre do passado. Livre para recomeçar.

